terça-feira, 24 de julho de 2012

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Sinto o meu cérebro ser oxigenado freneticamente enquanto percorro a estrada vazia. É noite. Lá fora, o que consigo ver não vai além do que a luz dos faróis alcança, o rádio emite sons calmos, quase imperceptíveis, de programas tipicamente nocturnos e, pela janela aberta, entra um ar quente  e irrespirável.

Há qualquer coisa nas noites de verão que fazem a solidão dos poucos quilómetros que me separam de casa ter gosto de liberdade. Têm algo de inexplicavelmente inspirador capaz de remover todo o cansaço que o corpo guardava até aí. O cérebro parece perfeitamente capaz de me levar para os mais variados pensamentos: trabalha rapidamente e faz todos os músculos do meu corpo relaxar... é como se, de repente, sentisse a adrenalina a pulsar em todas as veias do meu corpo e, ao mesmo tempo, ele se distendesse completamente.

O cansaço esconde-se por detrás das minhas pálpebras que se abrem mais do que o normal e o meu cérebro emite fracções de pensamentos desconexos que desaparecem no segundo seguinte. Nos poucos quilómetros que me separam de casa tudo em mim percorre um ritmo alucinante. Eu continuo o caminho devagar, aumento o volume do rádio e a minha única certeza é que, nessa noite, não vou conseguir dormir.

terça-feira, 29 de maio de 2012

"Eu nem sequer gosto de escrever...

Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida." 
eugénio de andrade

domingo, 27 de maio de 2012

Gostava de poder voltar a sentar-me à mesa do café com uma ou duas pessoas. Gostava de perguntar, genuinamente, pelas novidades entre o sumo de laranja e a torrada. Gostava de saber o que nos levou umas das outras, gostava de perceber o que eu fiz, em que magoei e gostava de dizer que não queria. Que não queria magoar, que não queria que me fugissem, que não queria. Gostava de perceber se ainda somos o que éramos, se ainda as via como antes, se me identificava com o que, depois deste tempo, habita naqueles corpos. Gostava. Gostava de pedir o café e sorrir-lhes enquanto abro o pacote de açúcar. Gostava, nem que fosse uma só vez, mesmo que percebesse que o que nos unia não existe, que não há como voltar atrás, gostava. Gostava que soubessem que tenho saudades.