sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Deixar

Sempre tive uma mente muito livre e sempre soube que, muitas vezes, o turbilhão dentro da minha cabeça não se limita à realidade. Não é estranho, por isso, que me aconteça, às vezes, ter dificuldade em perceber se o pensamento que tenho em determinado momento é algo que li, que alguém me disse ou simplesmente obra do lado mais rebelde da minha mente. Há muito que lido com uma questão que se encaixa nesse dilema mas que, mesmo sem saber de onde vem, não deixa de me incomodar.

O que acontece quando morremos é uma incógnita que vive há anos, que é alimentada por muitos e desvalorizada por outros. Fora de todas essas dúvidas, que se dissesse não ter estaria a mentir, existe outra questão associada que me faz pensar muitas vezes. Passamos a vida numa tentativa desenfreada de fazer a diferença, de deixar uma marca, de fazer com que se lembrem de nós quando não houver réstia de matéria daquilo que fomos. Nem sempre conseguimos, obviamente, e para 90% de nós, quando tiver passado um século da nossa morte não passaremos de nomes desconhecidos em placas de granito num cemitério que poderá já nem ter localização conhecida. Mas ainda assim tentamos. Evitamos pensar que possamos falhar e procuramos aí dar um sentido à única vida que conhecemos.

Sou assim, também. Quando decidi ser jornalista e me ensinaram o peso do caso Watergate ficou até hoje, na parte de trás da minha cabeça, uma ideia de que, quem sabe, um dia, também eu pudesse contribuir para uma qualquer mudança no mundo, nem que fosse na vida de uma só pessoa. Hoje, numa altura em que muito se fala de guerras, de bombardeamentos, de decapitações, de mortes de inocentes a troco de muito pouco tenho pensado mais no que me leva ao ponto essencial deste texto.

Custa-me que muitos de nós passem a vida a alcançar grandes feitos e, por circunstâncias que não podem controlar, a forma como morreram seja, a partir daí, tudo o que restará deles. Nas ruas, nas conversas de café, quem morre por causa de uma doença que não conseguiu vencer será sempre o rosto da doença. Quem conheceu muitos dos que a guerra matou irá vê-los sempre da mesma maneira e eles nunca deixarão de ser os que morreram às mãos da guerra. Quando perguntarem às pessoas nas ruas o que sabem da vida dos jornalistas decapitados, muitos deles não terão nada mais a dizer a não ser a forma como foram mortos.


É injusto e redutor que, em muitos casos, a nossa mente se feche para tudo o que cada um deles foi, tudo o que fez, tudo o que viveu e se limite a guardar para sempre a forma como morreu. Fazê-lo é tirar o sentido que tentamos dar à vida, esquecer 99,9% do que fizemos dela. Quando pensamos, tantas vezes, que queremos ser lembrados, deixar uma marca, pensamos sempre que será por termos feito algo incrivelmente bom. Há pessoas que vão ser recordadas para sempre, é verdade. Custa-me é que, às vezes, seja pelos motivos que todos nós esperamos não ser.

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