segunda-feira, 14 de junho de 2010

Gente

O zumbido furava-lhe cada vez mais a cabeça. A dor começava a instalar-se, ao mesmo tempo que ia cerrando os punhos, ainda, pousados sobre a mesa. "O senhor da esquina hoje faltou ao trabalho", "e sabe, a dona Amélia cortou relações com a filha", "a Mariazinha engravidou do namorado". Estava farta. Levantou-se e foi apanhar ar. Mas a vida dela não lhe chegava? Tinha mesmo que falar, comentar, acrescentar e inventar detalhes sobre a dos outros? Recusou-se a ouvi-la reproduzir os pormenores que achava saber sobre quem amava tanto. São pessoas, porque teimava em fazê-las parecer objectos da sua coscuvelhice desmedida? Não tem amigos, não admira. Enervava-a tanto que nem tinha força para descrever. Enervava-a a burrice, a mesquinhice, a falta de inteligência, o excesso de conversa que dava a toda a gente, sem se preocupar se estava a magoar alguém. Não sabia o que dizer, dizia o que não sabia.

2 comentários:

Andreia Azevedo disse...

Só te digo uma coisa: és mula!

Adriana disse...

LOL isto lembra-me alguem xD