segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Negar

De todas as coisas que devíamos saber de nós, há umas quantas que teimamos ignorar mesmo quando tudo nos envia para outra direção. Negar o que, à partida, desconhecemos é uma dessas coisas. Podemos, do mais alto da nossa teimosia, cara amarrada e sobrolho franzido fazer o que dizemos não gostar  sem conhecer em nome de um orgulho que achamos ferido. A vida trata de nos fazer tropeçar e o tempo que leva a pôr-nos no lugar parece uma ligeira fracção de segundos pensada para nós mesmo antes de sermos nós. No pequeno instante em que sentimos os pulmões recuperarem de uma inspiração profunda e se prepararem para jorrar o excesso de ar que temos no peito percebemos que não foi só ar que inalamos. Foi o orgulho estúpido também, a negação. E expelimo-lo de nós como se de mais uma partícula de dióxido de carbono se tratasse. Se há algo que a vida nos faz sempre que teimamos ignorar o que já devíamos saber de nós é trazer-nos de volta, mostrar-nos um caminho que já devíamos saber de cor mas que teimamos em não escolher, dizer-nos que, às vezes, o que de melhor nos acontece está no que insistimos negar.
Às vezes, o melhor é deixarmo-nos ir, o mais fácil é acreditar naquilo que ouvimos, no que lemos ou no que a imaginação nos disse vezes sem conta. Que há momentos em que, sem darmos conta, o melhor de nós se cruza com o de alguém e nos prende como se de uma linha invisível se tratasse. Como se um pedacinho de algodão deixasse as nuvens para nos manter juntos, nos fazer uns dos outros e nos enlaçar com sentimentos de familiaridade que nem conseguimos entender. Às vezes, o melhor é deixarmo-nos ir, o mais fácil é acreditar que o universo nos empurra para determinadas pessoas quando os nossos caminhos ainda não conheceram a mesma rua. E no final, negar não muda nada, não adianta nada. Ou muda. Adia o que nos faz bem, arrasta-nos pelo engano e de todas as coisas que devíamos saber de nós, aquilo que nos faz feliz é a que devíamos conhecer melhor.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Há uma altura na vida de, calculo, toda a gente em que não se consegue evitar questionar. E por questionar quero mesmo dizer colocar entre 50 a 90% da matéria de que somos feitos em causa. Se me perguntarem se sou feliz, a resposta é 'sim, sou'. Se me perguntarem se podia ser mais, claro. É como quando nos perguntam se gostamos de uma refeição. A resposta, genericamente, até pode ser sim mas se insistirem muito somos bem capazes de deixar escapar que a salada até tinha uma pitada de sal a mais. A felicidade também é isto, estar bem com o que temos, na generalidade, e ter noção que alguma especificidade podia ser melhorada (não pode sempre?).
Todos nós questionamos, em determinado ponto da nossa vida, o que poderíamos fazer diferente ou, pelo menos, se iria valer a pena arriscar pela diferença. É inevitável. Assim como é inevitável que nos falte sempre algo. Eu estou nessa fase, ou mais ou menos. Para já a questão não é bem se arrisco o caminho da esquerda ou da direita. Para já é mais perceber para onde raio vou abrir um caminho para ter como escolher. 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O que foi de mim neste tempo (Parte IV)
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Terça-feira, 6 de Maio de 2014

Diz quem sabe que todos os escritores passam por bloqueios, uma vez ou outra. Que embora sejam fases de extrema frustração e desalento acabam por dar lugar a uma explosão de ideias e inspiração que faz valer todo o tempo que o bloqueio roubou. Eu, que não tenho a pretensão de me achar escritora e que acredito que a única razão que leva meio mundo a publicar livros é o facto de, eles próprios, lerem muito pouco, escrevo só. Passo o dia nisso, aliás, mas escritora não sou. E talvez por isso não me cause estranheza ter um bloqueio que se alastra há mais meses do que consigo contar. Se fosse escritora, sentar-me-ia numa esplanada numa tarde solarenga. Um único café na frente e o sol como companhia. Se eu fosse escritora a inspiração viria, com certeza, com o vento e o bloqueio seria lavado com as borras do café. Não sou. É pena, tenho pena. Escrever faz-me falta como do pão para a boca. Não a escrita de todos os dias, a de cá de dentro, que lava, purifica, desintoxica. E da falta que me faz sobra só um bloqueio que parece infinito e que não sei desatar. Mas também, que importa isso? Eu nem sequer quero ser escritora.