terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Alice

Tinha passado muito tempo desde que a Alice tinha pisado, pela ultima vez, aquele chão. Estava mais cheio, tinha mais nomes cravados em pedras de granito, mais flores a resistir ao vento. Tudo o resto era igual: o frio, os caminhos estreitos por entre os nomes cravados nas pedras de granito, as velas acesas quase sem cera. Foi, de braço dado com a mãe, atrás daquela multidão vestida de escuro que abafava pequenos soluços no cachecol. Não conhecia a pessoa que seguia na frente da multidão, nunca a tinha visto, nunca lhe tinha falado e agora sentia um estranho peso dentro do peito. Ninguém chorava compulsivamente, ninguém parecia perder o controlo e tudo o que era capaz pensar era em como nunca conseguiria manter aquela serenidade. Agarrou o braço da mãe com mais força  e quis sair dali. 

Enquanto voltava parou em frente a mais uma pedra de granito. Não havia fotografia, não havia velas e só algumas flores permaneciam ainda intactas. A placa de granito segurava um pequeno papel molhado, desbotado pela chuva. Tinha um desenho quase imperceptível e, em baixo, escrito com letra de criança permanecia intocável um "amo-te avô". 

Tinha passado muito tempo desde que a Alice tinha pisado, pela ultima vez, aquele chão e naquele momento teve a certeza que era melhor que continuasse assim.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sempre tive muita imaginação IV: "Quando eu for velhinha"

"Quando eu for velhinha vou ter os cabelos brancos. Também precisarei da ajuda das pessoas mais novas. As forças começam a não ser tantas como quando era mais nova. Se nós cairmos temos mais facilidade de partir qualquer coisa. Também quando envelhecermos vamos ficar reformados e ter uma reforma."

Elsa Sofia, 1997 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Rasgar Páginas

Li há uns dias, por aí, que nem sempre convém virarmos a página, às vezes é preciso rasgá-la. Hoje, ao passear-me pelo que era a minha vida há um ano atrás, percebi que rasgar aquela página foi o que me fez ser capaz de escrever novas. Em 2011 deixei a demência para trás, os pensamentos desconexos, os olhares vazios, o mau humor desmedido. E, ainda assim, sei que não vou realizar os 12 desejos que mantenho guardados, como aconteceu em 2010. E, ainda assim, sei que 2011 foi 2011 vezes mais feliz. É isso, ando a pedir os desejos errados e a página deste ano não vai ser rasgada, vou virá-la muito suavemente.