sexta-feira, 23 de julho de 2010

O pijama às riscas

Abriu a mala vermelha, guardou os sapatos, os chinelos. Do lado direito, religiosamente dobrado, pousou o pijama. O pijama às riscas que a mulher, já falecida, lhe tinha oferecido no último natal. Em cima, o casaquinho de lã, as calças de fazenda desbotada, a camisa, a gravata e o casaco que ainda tinha na lapela aquela flor. Arrancou o retrato da mesinha de cabeceira. Aquele retrato. O retrato da última vez que tinham sido felizes. Guardou-o noutro bolsinho da mala.
Queria sair dali, daquela terrinha que já nem era santa. Queria viajar, encontrar Aquele lugar perfeito. Longe da coscuvelhice das vizinhas, longe das guerras de palavras e trocas de galhardetes que só serviam para afastar as pessoas. Queria encontrar Aquele lugar perfeito, onde não o julgavam sem o conhecer, onde não havia insultos, interesses escondidos, onde não o fariam pagar pela opinião dos outros, onde não o puxavam para uma guerra de que não fazia parte, que nunca quis comprar. Onde o viam: simples, grisalho, de pele enrugada e barba mal desfeita.
Percorreu várias cidades e nenhuma era Aquele lugar. À noite, escondia-se numa qualquer pousada, não muito cara. Abria a mala tirava o retrato, o pijama às riscas, os chinelos, as meias quando fazia mais frio. Vestia-o, deitava-se e quando acordasse o pijama voltaria ao lado direito da mala. O retrato ao bolso mais pequenino.
Naquela noite, teve dificuldade em vestir o pijama às riscas, não tirou da mala os chinelos, nem as meias mas permaneceu agarrado ao retrato. Deitou-se, suspirou profundamente e ali estava. Aquele lugar perfeito. Não tinha a mala vermelha, o casaco de lã nem os chinelos. Mas tinha tudo o que precisava para ser feliz: o retrato e o pijama às riscas.

domingo, 4 de julho de 2010

I never loved him. I thought I did, but I didn't. I think I wanted to love him so much that I didn't realise that I was lying to myself. I never loved him, never. I loved what he made me feel, what he may feel for me, but I didn't love THE person. I loved me when I was with him. It's selfish, I know, but at least, I'm not lying anymore.

Sophie

segunda-feira, 21 de junho de 2010

22

Nunca entendi muito bem a magia do dia de aniversário. Afinal, é só mais um dia normal que, por acaso traz atrelado mais um ano para a nossa colecção. Nunca fui muito de festas, de bolos de aniversário, de presentes. O estranho é que conto ansiosamente os dias até à chegada do meu. Olho o relógio e volto a olhar, vezes sem conta, até ver exactamente aquilo que quero: meia noite. 
Viro-me na cama, nervosa e começo a sentir um friozinho na barriga. A luz acende-se, o telemovel vibra e eu dou um salto na cama. Esqueço o nervosismo e mergulho nas palavras dos outros que, naquele momento, as fizeram para mim. Pouso o telemovel e ele volta a tocar e a tocar e a tocar. Vou dormir tarde e não me importo, nao vou acordar tarde, nao naquele dia. Levanto-me cedo, corro a ver se mais alguém se lembrou de mim. Rio, dou gargalhadas efusivas, digo mais disparates que o costume.  Corro a ver as minhas páginas das redes sociais. Acumulam-se frases de parabéns mais ou menos pessoais. Gosto de pensar que se lembraram de mim, assim, lembraram porque em algum momento fui marcante, porque sou eu. Gosto de pensar assim, mesmo sabendo que provavelmente foi so calendário que avisou. Não me importo quantos anos vou somando, não me importo com os presentes que vou recebendo, não me importo com nada. Mas hoje percebo. A magia não está nas velas, nos bolos. Magico é este calor que sentimos cá dentro, esta alegria que quase nos faz explodir, é este sentimento de que somos importantes para alguém, de que pelo menos hoje, toda a gente se lembrou de nós.

E depois das 23 horas, o meu telemóvel ainda não se cansou de tocar*

Obrigada!