sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

"Tenho fome, posso ir buscar bolachas?", perguntou-me e eu respondi afirmativamente. Trouxe uma caixinha com algumas. Tinham recheio de geleia de framboesa. Pousou-as na mesa e ia dando uma ou outra dentada entre as diversas pinceladas no desenho.
Tirei uma balacha. Abri-a, comi toda a parte onde não havia geleia e deixei o resto num canto.
"Não se faz isso", disse-me com um olhar reprovador. "Mas eu não gosto", argumentei rapidamente. Sem dizer mais nada agarrou no pedacinho que eu tinha deixado e comeu. Ainda repeti o gesto umas quantas vezes. Ele comia sempre o meu pedacinho.
De repente, largou tudo o que estava a fazer e levantou-se. Quando voltou, pôs-me na mão um pacote de bolachas de água e sal. "Come estas", disse ele "assim já não estragas mais nenhuma".

E por breves momentos, naquela sala, era eu quem parecia ter cinco anos.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Mundo Nosso

Eu, pequenina, irrequieta e traquina acreditava em tudo o que me dizias. Seguia-te de olhos fechados para um abismo, se me pedisses. Dava-te os meus rabiscos. Rabiscos, que na minha cabeça, eram o melhor dos presentes. Escrevia-te cartas quando, com dificuldade, ia aprendendo as primeiras letras. Tu, cuidavas de mim. Passavas tardes inteiras comigo, sem te queixares. Defendias-me do animal feroz que tanto temia. Inventavas mil e uma histórias que me divertiam. Viamos o Natal dos hospitais sentadas na sala. Eu, encolhida no chão olhava para ti enquanto tu, divertida, olhavas os cantores na televisão. Ouviamos as músicas que eu gostava, as que passei a gostar só porque eram as tuas favoritas. Brincavamos com as barbies, iamos para uma ponta do teu jardim fazer porcaria enquanto as nossas mães se mantinham ocupadas na outra ponta. Também tu me davas bolachas, só tinha que ir ao frasquinho do costume, e lá estavam elas. Queria ser como tu, em tudo, menos no cabelo. Gostava do meu. Hoje, eu crescida, sossegada e brincalhona, sorrio quando me lembro de cada momento. Já não vivo aí, já não partilhamos tardes inteiras. Mas acho que consegui ser um bocadinho do que tu és. Do que me ensinaste a ser, do que me fizeste querer ser. E sabes, ainda hoje te seguia de olhos fechados se me pedisses, ainda hoje tens um brilho tão especial que só consigo ver em ti*

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

"Tudo na vida tem o seu tempo, e o seu caminho, e o meu agora é outro: é novo, é desconhecido, é estranho. Mas é o meu, o que eu quero e o que tenho que viver."

Margarida Rebelo Pinto


E quando não consigo encontrar palavras, há sempre quem as encontre por mim.