Balançava-se na linha ténue que lhe cortava a vida bem ao meio. Algures entre o ser desastradamente acordado e aquela inconsciência demasiado voluntária. Usava-a como escudo. Era melhor assim, estava protegida. Por momentos nada mais a atingia, nada mais a perturbava, nada mais a fazia sofrer. Nada. Não lhe partiam o coração em mil pedaços, não lhe derretiam dolorosamente o corpo. Pairava apenas na imensidão de um nada envolvente, um vazio acolhedor que barrava a entrada do mundo, que impedia que tudo se desfizesse.
-Em que estás a pensar?
-Em nada...
-Em que estás a pensar?
-Em nada...
E de repente, tudo voltou a desmoronar-se.

