sexta-feira, 11 de julho de 2008


"Uma vez começadas, as coisas não devem ser esquecidas nem deixadas antes de ser acabadas, pois é sinal de pouca prudência começar muitos actos e não acabar nenhum."
Mateo Alemán

domingo, 6 de julho de 2008

Pedaços de Papel


Ele fazia desenhos na areia. Ela olhava o sol e sorria -" Sabes, às vezes acho que sou como um pedacinho de papel"
Ele continuava a acariciar a areia sem dizer nada e ela continuou: "Sou como uma folha de papel, onde desenham sentimentos doces, onde escrevem palavras duras. Uma folha de papel de todas as cores, mas que rasgam quando já não é importante, que substituem quando encontram melhor. Uma folha de papel que perde o brilho a cada pingo de chuva, a cada lágrima. Uma folha que voa com o vento e que se desfaz com o tempo. Uma folha que riscam, que destroem, que queimam e abandonam. Mas sou um pedacinho de papel, onde é impossível apagar alguma coisa"
Ele levantou o olhar e entre um sorriso disse: "É nos pequenos pedaços de papel que se guardam os maiores segredos e por isso é que eu gosto tanto de ti".


E ficaram os dois a olhar o pôr do sol.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Quase...

"Ainda pior que a convicção do não, a incerteza do talvez

é a desilusão de um "quase".
É o quase que me incomoda, que me entristece, que
me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga,
quem quase passou ainda estuda,
quem quase morreu está vivo,
quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos,
nas chances que se perdem por medo,
nas ideias que nunca sairão do papel
por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna;
ou melhor, não me pergunto, contesto.
A resposta eu sei de cor,
está estampada na distância e frieza dos sorrisos,
na frouxidão dos abraços,
na indiferença dos "bom dia", quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir
entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.
Se a virtude estivesse mesmo no meio termo,
o mar não teria ondas, os dias seriam nublados
e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina, não inspira, não aflige, nem acalma,
apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. (...)

Desconfie do destino e acredite em si.
Gaste mais horas realizando que sonhando,
fazendo que planeando, vivendo que esperando
porque, embora quem quase morre esteja vivo,
quem quase vive já morreu!!"

Luís Fernando Veríssimo
Um dia, o meu eu quase foi outro. Quase. E ainda bem.